A lenda de Fausto e do seu pacto com o Diabo foi usada por vários escritores, como Goethe e Thomas Mann, e interpretada de várias maneiras.
Fausto simbolizaria a ambição humana pelo poder em trágico confronto com Deus e o Destino, ou o espírito humano disposto a desafiar a Natureza e a danação eterna pelo conhecimento, o que também acaba mal mas traz a civilização. De qualquer jeito, é o mito inaugural do homem moderno, que sacrificou sua alma para ter a Ciência. E é revivido cada vez que alguém precisa decidir, mesmo metaforicamente, se aceita ou não negociar a alma com o Diabo. Ou que alguém apenas imagine como agiria na mesma situação.
Eu, por exemplo, já pensei muito no que pediria ao Diabo em troca da minha alma. Depois de vencida as primeiras etapas, de estabelecer contato (um anúncio nos classificados?), marcar o encontro ("Eu vou ser o único com chifres e cascos, não tem como errar"), submeter minha alma a avaliação (ela não deve valer muito mas dizem que o Diabo não pechincha) e acertar os termos do contrato (meu advogado e um advogado do Diabo), o que eu, finalmente, pediria? Já que não quero nem poder, nem glória, nem, na minha idade, loiras ilimitadas?
O Diabo, acostumado a grandes transações através da História com a Humanidade e o seu Ego, talvez se surpreendesse com as minhas pretensões.
Embora elas talvez fossem típicas de uma Humanidade de classe média já descrente de qualquer transformação na sua espécie, um pouco enfarada dos grandes temas míticos e resignada à falta de grandeza em geral. Não, eu não pediria Sabedoria e domínio sobre o Tempo e o Espaço. Pediria, para começar, que a minha mala fosse sempre a primeira a aparecer na esteira, no aeroporto.
Posso ver a cara do Diabo, diante do meu pedido.
- O quê?
- Quero que a minha mala seja sempre...
- Eu ouvi. Só não acreditei. Você tem certeza que é isso mesmo que quer? Em troca da sua alma?
- Para começar.
- Pense no que está fazendo! É a sua alma, a sua eternidade, que você está me entregando. E em troca quer essa... Essa mesquinharia?!
- Mesquinharia? Pra você. Minha mala nunca - nunca! - é a primeira a aparecer na esteira. É uma aberração estatística. Pelo menos uma vez ela poderia ter aparecido, mas nunca aconteceu.
Quero ter a felicidade de ver a minha mala aparecer na frente das outras. E não uma vez. Todas as vezes!
- Você não quer conhecer os segredos da Matéria e do Universo? Você não quer todos os poderes do mundo?
- Quero um poder só.
- Qual?
- O de abrir celofane de CD com a unha, e rápido.
O Diabo faz a pergunta com cara de quem prefere não ouvir a resposta:
- Como é?
- Quero o poder de arrancar o celofane que envolve os CDs usando só a unha, sem precisar recorrer a tesourinhas, facas ou dentes, rapidamente e na primeira tentativa.
- Está bem - suspira o Diabo, desolado com a qualidade dos novos Faustos. - O que mais?
Preciso pensar um pouco. O que mais? Ah, sim.
- Cartilagem de galinha.
O Diabo não consegue mais nem falar. Me manda prosseguir com um gesto desanimado.
- Não quero mais ter a surpresa de morder uma cartilagem de galinha, frango ou galeto. Nunca mais. Pelo resto da vida.
O Diabo parece estar a ponto de desistir, de mim e da minha alma. Ele deveria ter previsto isso, quando eu o convenci a aceitar minha assinatura no contrato com Bic vermelha em vez de sangue.
Mas o contrato está assinado e tem que ser honrado.
- Que mais? - pergunta o Diabo, de olhos fechados.
- Vaga em estacionamento de shopping. Sem precisar rodar muito. Para sempre.
- Tá bom. Que mais?
- É isso.
O Diabo abre os olhos. Tenta, pela última vez, dar um significado maior ao nosso encontro, ou um valor maior à sua compra.
- Você não quer que eu lhe revele a Razão e o Objetivo da Vida?
- Tá doido.
- Não quer nada mais em troca da sua alma? Nenhum outro poder que a maioria dos mortais não tem?
- Nenhum.
Mas aí me ocorre outro.
- Ah sim. O poder de acertar o timer do videocassete!
E então o Diabo desiste.
VERÍSSIMO
37 comentários, (1082 leituras) Outros artigos de, Emanuelle Brasil
O problema no meu caso seria de estelionato. Creio que o Chifrudão concedería-me alguns desses pedidos "verissimonianos", além, é claro, das "loiras ilimitadas", pq sempre tive uma certa simpatia por coloração artificial (não em mim, lógico!, nem na minha vó), e, depois de ter pedido que ganhasse uma vez pelo menos naquelas promoções de palitos de sorvete que te dão um outro de graça, que não suasse quando ficasse nervoso, não soltasse jamais nenhum perdigoto (ainda mais enquanto estou falando com alguém de cabelos sedosos, peitos de cálice e cintura de violão) e outras bobagens como ganhar na loto e comprar o amor, então, finalmente, o Coisa Ruim roubaria minha alma, numa saco azul de cetim escrito "Frágil". E quando abrisse, de dentro ressoaria uma daquelas risadas mecânicas que saem do aperto de almofadinhas e, no saco, haveria apenas um pirulito e um papel escrito "sucker".
Quando criança eu sempre engolia o picolé para ver se saía as letrinhas no palito. Só que eu pedia pra Deus. Ao diabo, imploraria o dom de ler o pensamento das pessoas, sugaria até a última gota os pensamentos imersos naquele olhar doce, realmente doce. E, mais uma coisa, ficaria muito feliz se ele me desse ao menos um dia inteiro de plena satisfação.
Meu Deus! Esse texto é simplesmente genial... Nossa! Estou chocada...
Eu também tenho uma aberração estatística sobre malas no aeroporto. A minha é sempre a última, sempre. Não estou exagerando.
4. Realmente Escrita em 26/008/04 por adrianabraga
o texto é ótimo...nunca consigo ajustar o timer do video cassete ...sempre acaba ficando mais ou menos tempo então eu sempre ou perco o finalzinho de um filme hiper interessante ou gravo um monte de porcaria que vem depois.
Esse texto nos faz pensar nas pequenas coisas do dia-a-dia que tanto valorizamos ou que nos irritam e não temos nada a fazer. Somos impotentes diante de tantas coisas...ignoramos um poder maior de a tudo por ordem. Quem não gostaria de sempre achar o elevador no seu andar? E pegar todos os sinais verdes quando se está com pressa? De nunca acontecer de rasgar a meia-calça exatamente na hora de sair; de achar o filme na locadora; de não ficar com aquela marquinha nojenta de suor embaixo do braço...e por aí vai. Mas na verdade se pararmos pra pensr, temos de rir de alguma coisa, né? Toda a tensão que passamos, uma vez superadas se tornam boas histórias pra contar que rendem boas gargalhadas. E de que vale a pena viver se não temos boas histórias pra contar?
Não seria poder, glória, grana, esses clichêzinhos básicos que todo mundo pede. Seriam algumas coisinhas bem simples que me deixam profundamente irritada, assim, como o personagem.
pediria que acabasse com as filas de bancos, e de tudo quanto é tipo de fila, e com os engarrafamentos. E tudo aquilo q não sabemos onde está aparecesse logo sem ficar a gente ter que ficar implorando a São Longin. São coisas mínimas q fazem uma diferença, q vcs não têm noção.
"A lenda de Fausto e do seu pacto com o Diabo foi usada por vários escritores, como Goethe e Thomas Mann, e interpretada de várias maneiras", mas sem dúvida a melhor de todas é a do Chapolim da varinha Chirrin Cherrion. Fantástica...
Em troca da minha alma, só apelando pros clichês: nunca faltar papel no banheiro, nunca chover quando a gente está de escova no cabelo, nunca ouvir sem querer alguém comentar o final do filme que a gente está louca pra ver
Eu iria implorar para que ele eliminasse todos os programas ruins do canal aberto. Isso proporcionaria uma melhoria na qualidade de pensamento das pessoas que poderiam viver em maior harmonia.
Esse texto nos faz refletir no que pedir em troca de nós mesmos--bem interessante. É um bom exercício para fazer um "brainstorm" do que desejamos para nossa vida, quais são as coisas que nos incomodam...
Esse texto é realmente muito bom. Nos faz refletir sobre coisas pequenas que acontecem com a gente no dia-a-dia que nos deixa irritados. E as vezes perdemos o dia por causa disso.
A da chapolin é ótima, mas esse poder infinito a qual poderia pedir é meio louco.
Não gosot de ficar pensando no que poderia ter, mas sim no que já tenho. Uma vez me disseram que mais vale conseguir manter o que você já tem do que agregar mais coisas.
15. mto bom! Escrita em 16/006/05 por mariana_fleury
Esse texto enfatiza as pequenas coisas do dia-a-dia que nos deixam extremamente irritados...afinal, quem gosta de esperar?que seja a mala, a fila do banco, a fila do estacionamento, o tempo q se leva para abrir uma embalagem de cd, o tempo que se espera no telefone quando vc liga pra fazer uma reclamação e te deixam ouvindo aquela musiquinha... Estamos correndo contra o tempo e perder tempo com essas coisas justifica se estressar seriamente.
O texto é òtimo!!! Fiquei me perguntando diversas vezes o que eu pediria ao diabo...O texto me fez pensar nas coisas que me irritam no dia-a-dia e no que eu gostaría de mudar...mas até agora não sei direito. De repente eu iria pedir para toda vez que eu fosse estacionar o carro já tivesse uma vaga reservada para mim...
O texto apesar de ter um humor rebuscado, realmente nos faz pensar no que se pediria em troca de sua alma... e realmente esses pedidos que estão no texto fazem muito sentido! São pequenas coisas que gostaríamos de ter um insight e entender o porquê de nossas malas não serem as primeiras ou porque o carro da frente achou uma vaga excelente no estacionamento e vc, logo atrás ficou rodando horas...
Eu pediria a ele para fazer com que o Miguel deixasse a gente fazer o trabalho do evento em grupo ou, pelo menos, em dupla!!! Será que esse tal de diabo me atende?? :p
heheh... Fico me perguntando o que verdadeiramente seria útil pedir. Mas acabo achando que é sempre muito pouco. Muito pouco frente a tal pacto. Quem sabe eu encontre uma resposta...
Engraçado como, através dessas pequenas coisas, a gente se identifica com o texto e percebemos que todos passam por situações insignificantes, mas ao mesmo tempo tão chatas!
nunca esqueço uma vez que fui ao shoping com meus pais em pleno dezembro, shoping lotado, e depois de mais de 10 minutos rodando atras de vaga, meu pai quando jah estava a ponto de explodir parou o carro em um corredor pra se acalmar e na mesma hora 3 carros saíram no mesmo corredor em que estavamos, foi muito sorte, ou terá sido outra coisa??
Engraçadinho esse artigo. Realmente diante da situaçao atual dos seres humanos e do mundo, o individualismo e, por vezes, a futilidade acabam por tomar conta dos pensamentos humanos. Até o Diabo se indigna e se impressiona.
Verissimo nao erra nunca em suas cronicas!! sempre com otimas sacações!! O tipico homem de classe media moderno pensa assim, com alguns acrescimos como nao enfrentar mais filas, etc... olha o q realmente é importante a ponto de ser vendido uma alma!! hauahuaha... mto bom
26. Pedidos Escrita em 24/009/05 por Izabel_Ragoni
Pediria para o Diabo vários coisas...Para que nunca chovesse quando estivesse sem guarda-chuva, para minha mãe não perder sempre a chave de casa, para que não existisse a viação sampaio, para que pessoas não tentassem andar de mãos dadas na rua, que tivesse mais homens que prestassem...Uma lista enorme!
O Veríssimo me surpreende a cada nova crônica que eu leio! Afinal, não é apenas uma crônica, mas, uma sátira dos desejos vazios e comuns que permeiam as mentes da sociedade contemporânea. E o melhor é que o Veríssimo é sempre capaz de questionar com muito humor!
Minha mala NUNCA foi a primeira, como já não foi nem a ultima, nem a do meio. Minha mala já foi extraviada mais de 3 vezes.. aargh q raiva que dá! Chega só meu corpo e minha alma no destino, e minah mala, extraviada...será que foi o diabinho? hahah
Pediria que levasse todos aqueles que me fazem mal... mas até que uma vaga sempre no estacionamento seria uma boa hehehehehe a mala então....
31. o que? Escrita em 14/10/05 por Priscila_chermont
O que eu pediria? Hahaha Bem engraçado... nunca tinha pensado nisso... acho que eu pediria pra ele levar para o inferno todos os bandidos e corruptos... todas as pessoas que estão fazendo a gente viver nesse mundo perigoso.
Mais uma vez, Verissimo nos surpreende positivamente com seu brilhantismo. Que criatividade ele tem!!! E é fantástico pq ele consegue passar a mensagem q deseja sem usar clichês e é assim que nos surpreende mais ainda. Nesse texto, por exemplo, ele pegou exemplos "banais", coisas simples do nosso dia a dia e conseguiu transforma-las em itens fundamentais para termos uma vida facilitada. Pq realmente é um saco ficar horas tentando abrir um cd, ficar esperando a mala na esteira do aeroporto, depois de uma viagem que o q vc mais quer é ir pra casa descansar...
Muito bom esse texto! Nos mostra como as pequenas coisas, que na maioria das vezes passam despercebidas fazem parte da vida, e que assim têm grande importência apesar de não receberem o devido valor.
Ahahahaha... caramba, muito bom! Só podia ser Verissimo! É como todo mundo já falou, são as pequenas coisas da vida... Qual é a graça de desvendar os misterios do mundo? O negócio eh abrir o plastico de cd na unha! É querer almoçar fora aos domingos e não enfretar uma fila gigante... Gostei tb do pedido da Cristianede Olveira. Bem que o professor poderia deixar fazer pelo menos em dupla o trabalho.. hahahah
Existem coisas no nosso cotidiano que realmente conseguem nos tirar do sério e Veríssimo consegue falar delas com ninguém!! Muito bom!!
36. Muito Bom Escrita em 11/004/06 por patr_cia_braga
Adorei. Acho que é bastante reflexivo nos dois extremos, o da sabedoria e poder absoluto, assim como o da futilidade e satisfação no que se refere a uma integração social bem sucedida. Muito Bom
37. genial.... Escrita em 07/008/06 por Nat_lia_Montechiari
Simplesmente genial.... porque não tornar as ações e fatos mais corriqueiros como sendo os primeiros da lista? Afinal, eles acontecem com maior freqüência do que ganhar na loteria, por exemplo!!!!!
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