Novas formas de viver – Clubbers e Ravers Thaís Cristine Chies
Resumo A Cultura da Música Eletrônica fundamenta a formação de grupos como os clubbers e ravers e, também, a produção musical computadorizada, festas raves, vestimentas, cultura dj, clubbing, ideologias (PLUR- peace, love, unity and respect), etc. O movimento clubber surge no final dos anos setenta e as primeiras raves no final da década de oitenta, ou seja, na pós- modernidade. Características desse período histórico pós- industrial, a saturação do forma política e do individualismo, a desterritoriazição, a massificação das sociedades e o consumismo, entre outros, são criticados por essas tribos. Histórico Na Pós- Modernidade, que corresponde a uma sociedade pós- industrial, marcada por um momento pós-utópico, sem projeção de futuro, são constituídos novas formas de agrupamentos: as tribos urbanas. Os clubbers e ravers, marcados pela Cultura da Música Eletrônica, se fundamentam em modelos subjetivos com características próprias da contemporaneidade que representam uma nova forma de viver nesse período histórico. O movimento clubber começou a surgir na década de 70, em um período pós-guerra do Vietnã. No entanto, foi na década de 80, na Inglaterra, que esse movimento sefirmou. Naquele momento não só os clubbers estavam tentando se auto-afirmar dentro do sistema, mas também os punks, negros e gays. Os clubber se uniram para defender uma filosofia de paz, diversão e liberdade. Já no final dos anos 80 aconteciam as primeiras festas raves em Manchester (Inglaterra), derivadas das festas em clubs de Ibiza, Espanha, cujo som se denominava “balearic” (qualquer gênero dançante). Em seguida o fenômeno se espalharia pela Alemanha, principalmente Berlim. Nos EUA (New York), as festas rave chegam em 1991.
Toda a cena inglesa, ao final dos anos 80, era chamada de “acid house party". A terminologia não existia até então. O termo Rave (delírio) surge para reforçar a relação da música eletrônica, com o esctasy e ácido lisérgico na busca por um estado alterado de consciência .(Souza,2002)
O conceito de Rave, advindo da produção da música eletrônica, foi formatado em festas realizadas em espaços abertos, fora do perímetro urbano ou em galpões abandonados da periferia, ao som da música hipnótica tecno e do uso de drogas como o Ecstasy e o LSD. Como ideologia, os ravers adotaram a defesa dogmática do PLUR (peace, love, unity and respect - paz, amor, unidade e respeito). A música, "executada" em pick-ups (pratos de toca-discos antigosl) por DJs, envolvia os clubbers e ravers em danças de horas a fio, numa grande celebração tribal de alegria e êxtase. (Souza,2002)
Os clubbers surgiram em conseqüência do panorama da música de dança e do chamado clubbing, que mais não é do que a freqüência assídua a determinadas casas noturnas (clubs, ou discotecas) onde domina a música de estilo house, techno, trance, e drum n´ bass, quatro gêneros de música eletrônica.
A formação das tribos de clubbers e ravers tem como referencial comum o gosto pela música eletrônica, que corresponde, para estes agrupamentos, a um conjunto de manifestações associadas a esta musica (e-music), como estilos de vestuário, moda em geral, culto ao DJ, cultura gay, uso underground de tecnologias contemporâneas (webzines, sites, listas de discussão, chats), festas ravers em clubs, cibercultura e o caracter hedonista da busca do prazer coletivo através da música, do uso de drogas, do prazer aqui e agora (Souza,2002).
Podemos dizer que a cultura da música eletrônica faz parte de uma cultura rizomática, ou seja: universal, com conexões em diferentes regiões do planeta, desterritorializada. Ainda, essa cultura é marcada pelo conceito underground (formas alternativas de informações, música sem caracter comercial) ligada à cibercultura. Associadas, essas culturas produzem novas formas de socialidade, difusão artística, manifestações de tribos, construindo novas formas do existir humano, afirma Palácios. Para que essas formas culturais constituam uma socialidade é preciso, contudo, um ponto de conexão. No caso da cultura da E-music, a música assume esse papel, constituindo tribos (clubbers e ravers), gerando, então, uma interconexão entre tecnologia, comportamento, arte, informação e ciberespaço.
Sendo assim, através da música eletrônica, os ravers e clubbers vivenciam uma forma comum de experimentar, que é definido por Maffesoli (1987) como “estilo estético” (“estético” entendido aqui como a maneira comum de experienciar, de sentir). Maffesoli (1995) afirma: “o estilo estético, ao se tornar atento à globalização das coisas, à reversibilidade dos diversos elementos dessa globalidade, e à conjunção do material com o imaterial, tende a favorecer um estar-junto que não busca um objetivo a ser atingido, (...) mas empenha-se, simplesmente, em usufruir os bens deste mundo, em cultivar aquilo que Michel Foucault chamava de "cuidado de si", ou "o uso dos prazeres", em buscar, no quadro reduzido das tribos, encontrar o outro e partilhar com o outro algumas emoções e sentimentos comuns”.
As características do ”estilo estético” são idênticas e partilhadas em diferentes territórios do mundo, acentuando por um lado à noção de tribalidade, e, por outro, a desterritorialização e o caráter rizomático desta cultura.
Para compreender quem são os clubbers e ravers é preciso descrever alguns aspectos que estão na base da cultura da música eletrônica como: a música eletrônica, a cultura do dj, festas raves, o dogma PLUR, vestimentas e drogas.
A Música Eletrônica e a Cultura do DJ ( Disk Jockey) “ A essência da música techno é seu constante estado de fluxo...O DJ mistura duas faixas (ou mais) diferentes e uma nova é criada...Ela (e-music) se alimenta e cresce dela mesma”.(Stiens) Peter Ilich Tchaikovsky (1840-93), em sua sinfonia “1812” com um tiro de canhão - som, ou timbre, nada convencional e que transgredia os padrões preexistentes, aponta um caminho percorrido pela música eletrônica: a busca de novos timbres e o entendimento de que outros instrumentos, que não os tradicionais, fazem música, produzem ritmo e melodia. Cria-se em 1964 o Moog (sintetizador portátil) a fim de desenvolver novas formas investigativas de produção musical. Com essa produção surge uma estética mais popular para a música, com o conceito de música experimental, gerada por timbres totalmente sintetizados e manipulados eletronicamente. Nos anos 70, a busca por novos timbres continua incentivando outras produções e surgem novos estilos (ambient, trip hop, gabba, disco, house, acidhouse, tecno, detroit tecno, trance, tecnopop) e novos grupos musicais como o Can, Faust e Kraftwerk. Disk jockeys (DJs) tornam-se referência. São esses os verdadeiros pesquisadores da tantas novidades lançadas em tantos lugares diferentes. Além do moog, são criados os samplers - máquinas que tiram amostras de sons para serem coladas ou repetidas infinitamente - e sequencers - sintetizadores que reproduzem tunes (melodias, ritmos e linhas de baixos que podem ser alternados, manipulados) que dão poderes criativos para aqueles que não têm formação de teoria musical. Esses novos instrumentos geram uma música experimental que, atualmente, é cada vez mais produzida a partir da amostragem (sampling, em inglês) e da reordenação de sons. A música eletrônica, que é feita a partir de amostragens, pode, por sua vez, ser também objeto de novas amostragens, mixagens e transformações diversas por parte de outras músicas, e assim por diante. Assim, cada músico ou grupo de músicos funciona como um operador num fluxo de transformações permanentes em uma rede cíclica de cooperadores, não havendo, então, uma hierarquia aparente no papel desses músicos. Dessa forma, os criadores estabelecem uma relação íntima uns com os outros, a partir de um laço traçado pela circulação do material musical e sonoro em si, e não pela audição, imitação ou interpretação.(Levy) Hoje em dia, esses músicos podem controlar o conjunto da cadeia de produção da música e inevitavelmente colocar na rede produtos de sua criatividade sem passar pela intermediação que havia sido introduzida pelos sistemas de notação e de gravação (editores, intérpretes, grandes estúdios, lojas). A partir disso, a produção musical, da e-music, que não é propriedade de poucos eleitos, questiona o artista virtuoso e resgata o principal ideário punk do “Do it yourself” (faça você mesmo). Ou seja, é o fim do estrelato, do pop star. Aliás, essa produção, pode-se dizer, não é propriedade de ninguém: os samplers autorizam a cópia e põem um fim à obra intocável, definitiva, única. O que vale é o processo e é aí que reside o original, o autêntico. A música eletrônica é uma obra inacabada. Ela é, em si mesma, um banco de dados manipulável. Utiliza-se de todos os tipos de música étnica, religiosa, clássica, ou outras que são retiradas de seu contexto original, mixadas, transformadas. A música experimental, na sua estrutura, rompe com o padrão de início-refrão-meio-refrão-fim-refrão, ou seja, a música eletrônica não começa, não termina, ela sugere continuidade, infinitude, hipersonoridade, mixagem, novas colagens, novas conexões (Souza). Esse formato musical é explicado por Levy a partir da expressão “universal sem totalidade” em : “ a música tecno , em geral, cuja matéria prima é digital, ilustra a figura singular do universal sem totalidade”. Além dessas características, a música eletrônica, em sua estrutura musical, é marcada pela repetitividade, a qual é um elemento fundamental de sua estética. Nesse ponto, há uma conexão com o som tribal produzido pelos povos indígenas e, também, com os mantras (estes se baseiam na repetição e buscam uma melhor integração com o Cosmo). Assim, na música eletrônica a repetição pode representar transcendência, liberação do ego, não falta de criatividade. Duarte explica que assim como o mantra destrói o individualismo, o techno (estilo de música eletrônica) destrói o pop estar. (Duarte) Nessas condições, a gravação deixa de ser o principal fim ou referência musical. O que não significa que os músicos da xultura da música eletrônica sejam indiferentes ao fato de que suas produções sejam referências. Porém, é mais importante criar um acontecimento no circuito (festas rave, clubs) que acrescentar um item memorável aos arquivos musicais. Mundo Rave
“A música, por si só, é capaz de empolgar as pessoas, mas o que distingue as raves é o conceito de experiência compartilhada; surge um sentimento de unidade, constantemente, e as pessoas estão abertas e amigáveis umas com as outras. Existe uma quebra da "preocupação de atitude" que é onipresente em boates comuns a até na vida em geral” (The Official alt.rave FAQ) A palavra rave sugere um estado existencial físico e psicológico alterado, fundamentado no sobrecarrego sensorial. Nessas festas é claramente observável o esforço coletivo para entrar em transe, para atingir esse estado alterado da consciência. O dj procura criar o clima, o “vibe”, através da música hipnótica, como se fosse um xamã. Mattew Collin, no seu livro Altered State, associa a música eletrônica com o uso da tecnologia para acelerar a percepção e o prazer. Já Souza explica a experiência em uma rave como: “um esforço “tribal “ para um prazer hedonista, despolitizado e pagão. Hedonista porque imediato e em função do prazer; despolitizado, porque é uma cultura além-Estado, além-governos, além-instituições, globalizante e universal, sem bases em partidarismos; e pagão, na medida que nenhuma religião é eleita como coletiva, nenhum deus é eleito como norteador. O único deus é a música tribal. Como já citado, as primeiras raves acontecem em Manchester, na Inglaterra, em fins de 1987 e início de 88. Logo após, o fenômeno se espalha pela Alemanha, principalmente Berlim. Nos EUA (New York), as festas raves chegam em 1991/92. Para compreender melhor o significado destas festas é preciso entender a noção de cena. Cena é a própria festa, o local em si, o momento histórico do grupo. A cena pode ser comparada a um grande palco onde todos estão atuando como atores”. Pode-se fazer uma analogia de cena com a vida em nossa sociedade, ou seja, as pessoas trocam de papel conforme o local onde estão, por exemplo: “Durante os dias da semana me visto de terno e gravata, e nas raves me visto de forma colorida.” Maffesoli propõem a substituição da “função” pelo “papel”, do indivíduo pela pessoa (persona –máscara). Assim pode-se concluir que o consumo está na base da representação de papeis, pois conforme troco de figurino troco o papel.
Mas toda a cena da Inglaterra no final dos 80 era chamada de acid house party, a terminologia "rave" não existia. O conceito rave, nascido no final dos anos 80 e advindo da produção da música eletrônica, foi formatado em festas em espaços abertos fora do perímetro urbano das cidades ou em galpões abandonados da periferia, ao som da música eletrônica. Como idéias principais, os ravers acredita(va)m no dogma dogma Plur - peace, love, unity and respect(paz, amor, unidade e respeito) que teve origem num discurso do dj Frankie Bones em uma de suas festas num galpão abandonado em Nova York em 1992.
Em festas onde a música eletrônica está implicada , como em raves, busca-se conexões com outras linguagens artísticas, notadamente no campo da produção imagética. É o caso dos artistas que geram imagens fractais, clips em 3D e animações em realidade virtual. Para Mizrach, uma rave “...é suposta ser uma experiência multimídia multisensorial, e assim estar capaz de simular o sentido do cheiro e do toque das raves, com incensos e odor de óleos, gelo seco.... Os ravers sentem que esta ‘sobrecarga sensorial’ serve como uma proposta para esmagar os sensos (comuns) e criar uma experiência sinestética, transcendental.” (Souza) A música associada às raves toma uma conotação de experiência coletiva, tribal. Nessas festas, as pessoas se juntam para celebrar, pela dança, pela música o prazer e desprazer de viver. Através de uma experiência multisensorial, funde-se o arcaico e o desenvolvimento tecnológico, com a música computadorizada, som tribal (repetitivo), luzes psicodélicas, drogas, dança primitiva. O sociólogo Tim Weber em uma pesquisa sobre a cultura Rave, conclui que os jovens buscam em festas raves, uma experiência libertadora, como remédio ao clima estressante em que vivem. “Os jovens vêem as raves como miniférias, pois tem poucas alternativas para diversão”, afirma Weber. Isso é visto, também, no discurso do jornalista Mattew Collen, quando ele explica essa sua definição de e-music:“ é o uso da tecnologia para acelerar a percepção do prazer. É uma forma de se libertar da experiência mundana do dia-a-dia e viver várias visões de drama, vitalidade e alegria.” Na busca por um estado alterado da consciência, drogas como Ecstasy e o LSD sempre caminharam paralelamente à cultura da música eletrônica, uma cultura hedônica. Essas drogas assumem o papel de dispertar um estado psicológico único de transcendência coletiva. Porém, raves e festas em clubs não dependem do uso de drogas. Vestimentas
Os clubbers e ravers distinguem-se dos demais pelas roupas coloridas e irreverentes, pelos acessórios ousados e pelos penteados e cortes de cabelo excêntricos. Essas vestes podem servir de código para expressar uma identidade tribal (tribo clubber, raver, punk, hippies). Na cultura da música eletrônica, da qual os clubbers e ravers são representantes, alguns adereços e componentes apresentam uma simbologia. Como: - Roupas coloridas: é uma maneira agradável de ver a vida; - Piercings : é um protesto contra o aborto, desrespeito a vida; - Tatuagens: é o conhecimento do próprio corpo e a liberdade de usá-lo como vitrine para um novo mundo; - E.T.s: representa que é uma sociedade pronta para viver em paz com qualquer outra; - “Chuquinhas”: representam o espírito infantil; - Raves: geralmente realizadas em meio à natureza, mostrando uma relação do homem como se fosse um só corpo; - Músicas: não existe letra, na maioria dos estilos musicais, por se tratarem de melodias individuais e universais são feitas para serem sentidas e não, simplesmente, ouvidas; - Cabelos arrepiados: protesto contra as guerras e armamentos nucleares; - Coturno: movimento contra o serviço militar, “antipatriotismo”; - Maquiagens fortes: um protesto quanto à falsidade das pessoas, simboliza as máscaras; - Objetos fluorescentes: cada ser é capaz de imitir bons fluidos, uma luz própria a favor da paz; - Presença de GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, transexuais) em festas em clubs e raves: o direito da liberdade sexual, a todas formas possíveis de amar. Em uma lista de discussão, sobre a Cultura da Música Eletrônica, foi encontrado um discurso sobre algumas características da vestimenta dos clubbers e ravers: “...Vamos falar de “montaria” na e-music. Tem os clubbers, ravers, gays e drag-queens. Por que a “montaria” nas raves e casa noturnas (clubs)? Porque isso dá mais vida à festa. Uma pessoa “montada” faz parte da decoração, se sente e fica mais ligada à festa. As outras pessoas olham para ela e “sentem mais o clima da festa”, sentem a festa mais viva. Quanto mais pessoas “montadas” estiverem em uma festa, melhor para a festa, pois um dos maiores atrativos das casas noturnas (clubs) e raves é que são sempre festas onde não há espectadores. É aí que entra o “U” do PLUR. Nessas festas, todos fazem questão de fazer parte do show, ou melhor “R”, fazer a sua parte no show.”(J.K.M.)
Alguns aspectos Teóricos
Após fazer uma explanação de alguns aspectos da Cultura da Música Eletrônica, é preciso, neste momento, explicar aspectos da pós-modernidade, da vida urbana nesse contexto histórico, o conceito de tribo, o movimento dos Primitivos Modernos (ModPrims) a fim de um melhor entendimento sobre características da subjetividade contemporânea que estão implicadas na estrutura do agrupamento clubber/rave.
Tribos
Ao utilizar o termo “tribos urbanas “, antes de mais nada, deve-se ter presente o sistema de significações de onde foi retirado esse termo. O termo “tribo” tem seu domínio original da etnologia e nela, uma forma de organização da sociedade. Para avaliar até que ponto esse termo ajuda a entender os fenômenos que ocorrem nas sociedades contemporâneas é importante definir os significados que ele tem no campo em que é manejado como termo técnico, nas sociedades indígenas. Tribo constitui mais que uma divisão em clã, linhagem, aldeia. Trata-se de um pacto que aciona lealdades para além dos particularismos de grupos domésticos e locais. (Magnani, 2002) É paradoxal o uso do termo “tribo” para denominar tipos de agrupamentos nas sociedades urbano-industriais já que esses grupos evocam particularismos, simbologias, regras, costumes, marcas de uso e significados restritos. E, no contexto das sociedades indígenas “tribo” aponta para alianças amplas.
Quando “tribo” é empregado como uma metáfora pode-se dizer que evoca – primitivo, selvagem, natural, comunitário – características que se supõe estarem associadas, acertadamente ou não, ao modo de vida de povos que apresentam, num certo nível, a organização tribal. (Magnani, 2002) Em um primeiro significado, mais geral, tribo urbana tem como referente determinada escala que serve para designar uma tendência oposta ao gigantismo das instituições e do Estado nas sociedades modernas: diante da impessoalidade e anonimato destas últimas, tribo permitiria agrupar os iguais, possibilitando-lhes intensas vivências comuns, o estabelecimento de laços pessoais e lealdade, a criação de códigos de comunicação e comportamento particulares. Em outros contexto, quando tribo evoca o “primitivo”, designa pequenos grupos concretos com ênfase nos elementos que seus integrantes usam para estabelecer diferenças, por exemplo, vestimentas, cortes de cabelo e tatuagens, piercings, a cor da roupa. Quando evoca o “selvagem”, o termo designa principalmente o comportamento agressivo, “anti-social” e contestatório. Esse último pode ser claramente identificado no discurso clubber, no dogma PLUR, etc. Ainda, quando são referidas grandes concentrações – festas raves, shows (envolvendo ou não consumo de drogas ou comportamentos coletivos tidos como irracionais), evoca-se algo confusamente imaginado como “cerimônias primitivas totêmicas”. (Magnani, 2002)
Por fim, nas tribos urbanas, o que não se aplica às indígenas, vê-se grupos cujos integrantes vivem simultânea ou alternadamente muitas realidades e papéis, assumindo sua tribo apenas em determinados períodos ou lugares,por exemplo o bancário que só depois do expediente é clubber, o universitário que só à noite é dark, rapper que oito horas por dia é office-boy etc (Magnani, 2002).
Primitivos Modernos
Pode-se definir Pós-Modernidade como sendo a combinação de modernidade e pré-modernidade. Em um mundo onde o velho (tradição, crenças populares, Tc) é mais e mais abandonado nada pode ser mais novo que rentroduzi-lo. É nesse contexto que o movimento dos “primitivos modernos” se constituem, determinados a “seguir simultaneamente as trilhas do passado e do futuro rumo a sua inevitável colisão”(Mizarch, 2002). Maffesoli (1987), questiona-se se “o ato de recorrer à história passada (folclore, recuperação das festas populares, recredenciamento da sociabilidade, fascinação pelas histórias locais), não é uma maneira de escapar à ditadura da “história acabada”, progressiva, e dessa maneira de viver no presente”. O que torna o movimento, dos Primitivos Modernos incomum é a busca pela sensação. Essa característica pode ser explicada como resposta à industrialização e da modernização, que produziram um “entorpecimento psíquico”. Os ModPrims (Primitivos Modernos) utilizam-se da dor, perfurando-se (piercing) para atingir um estado de transe, como se através da negação da dor demostrassem a “possessão” pelo divino. Retorna a idéia do conhecimento através da dor que a modernidade esqueceu (Mizarch, 2002). As experiências multisensoriais são vividas nas festas raves, como um sinal de unidade entre o passado e o futuro. A “rave” é ao mesmo tempo “primitiva”, com sua reunião de “tribos” de gente jovem para experimentar a “participação mística” através de cinéticos e MDMA (Ecstasy), da dança e música tribal, e “futurística” (ou moderna) com seu uso de música sampleada e remixada digitalmente, efeitos de luz e laser e exposições de multimídia. Os “ravers” vestem-se ao mesmo tempo de modo que signifique passado e futuro: perfurando suas peles e narinas, usando calças dos anos 70 com bijuterias e hologramas futurísticos, combinando as modas do folk e do punk. Os ModPrims clamam que suas performances são uma busca de transcendência, provando a capacidade da mente de ir além do estabelecido e das limitações do corpo. Nas batidas repetitivas da música eletrônica, muitas vezes lembrando mantras, os clubbers e ravers buscam um estado alterado da consciência, estado de transe, de transcendência. Muitos ModPrims pensam que saímos da linha passado-futuro, tempo histórico, e entramos em algum outro tipo de tempo cíclico, ou talvez mesmo o “fim da história”. Estudos indagam se este florescimento do primitivismo moderno, com sua explícita rejeição de antigas noções de progresso linear e evolução tem algo a ver com a mudança da base material da cultura. Existe o fato de que entramos numa economia pós-industrial de informação e serviço “desconectada” da produção material. Quebra-se com o ponto de vista “industrial”, onde o tempo é a fonte da progressiva criação de riqueza, e se reconhece o ponto de vista “pós-industrial”, onde o tempo pode ser fonte da vida humana e experiência. Portanto, passa-se do tempo linear para o circular que passado e futuro estão conectados (Mizarch, 2002).
VidaUrbana
Devido ao crescimento das cidades, a vasta aglomeração, extensas e complexas organizações nas quais a função oculta a pessoa, podem contribuir para o sentimento de uniformização aparente dos indivíduos. Criam-se, então, tentativas de respostas ao sentimento de massificação como: a procura de novas formas de subjetivação, a difusão de estilos de vida diferenciados, a experimentação que tentar criar novas unidades sociais mais “afetivas”, a multiplicação de possibilidades de engajamento, entre outras (Amaral, 1992, 2002). O encontro do “outro” organizado em grupos que visam a esse fim (clubs, raves, chats, listas de discussão) representa a tentativa de resposta e remédio para o sentimento de solidão urbana e permite o uso da criatividade na elaboração de códigos e regras .(Amaral, 1992, 2002) “Uma vez que a cidade só existe enquanto relação entre os diferentes grupos que interagem em um dado sistema produtivo, construindo sistemas simbólicos. A noção de grupos é essencial ao entendimento da dinâmica cultural urbana“.(Amaral, 1992, 2002) Segundo Pierre Bourdieu, “às diferentes posições que os grupos ocupam no espaço social correspondem estilos de vida, sistemas de diferenciação que são a retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência” (Bourdieu, 1983: 82). Grupos urbanos, Pós-modernos, como os clubbers constróem um estilo de vida com valores, gostos, formas de subjetivação, sensibilidades que definem um estilo de vida próprio, que se encontra na lógica massas-tribos. Além disso, essa tribo urbana se subjetiva em um período “cujo cimento principal seriam as emoções e ou sensibilidades vividas em comum” (Maffesoli), no tempo presente. Conteúdos
Agora, com um melhor entendimento da composição grupal, do período histórico e do local onde os clubbers e ravers vivem, aprofundar-se-a como essas e outras tribos urbanas estão se subjetivando através do campo da ciências sociais e da psicologia social. No universo urbano assitimos a disseminação incessante de tribos (punks, yuppies, skatistas, clubbers, ravers, etc.) que se distinguem umas das outras principalmente por distintivos visuais dos seus membros. No campo das ciências sociais, o fenômeno das tribos tem sido mencionado por vários autores (Caiafa,1985; Calligaris, 1996; Canclini, 1997; Castro, 1998; Featherstone, 1997; Maffesoli, 1987; Sarlo, 1997 ). Maffesoli é quem mais se destaca pela importância dada em sua análise da sociedade contemporânea ao estudo das tribos urbanas. Propõe que o "tribalismo" ou o "neotribalismo" (Maffesoli, 1987) seja tomado como um novo paradigma, que vem substituir o paradigma do individualismo na compreensão da sociedade contemporânea. Maffesoli afirma que a humanidade vive um "período empático", em que predomina a indiferenciação e o perder-se em um "sujeito coletivo", chamado por ele de "neotribalismo" (Maffesoli, 1987). O neotribalismo é presidido pelas noções de comunidade emocional, de potência e de socialidade. E é seguida pelas noções de policulturismo e proxemia que são suas conseqüências. Maffesoli (1987) define o “tribalismo” ou “neotribalismo” como uma "comunidade emocional" ou "nebulosa afetiva" em oposição ao modelo de organização racional típico da sociedade moderna. Nas tribos, o ethos comunitário é designado pelo conjunto de expressões que remete a uma subjetividade comum, a uma paixão partilhada. A adesão a esses grupamentos é sempre fugaz, não há um objetivo concreto para estes encontros que possa assegurar a sua continuidade. Trata-se apenas de redes de amizade pontuais, que se reúnem ritualisticamente com a função exclusiva de reafirmar o sentimento que um dado grupo tem de si mesmo. Já para Canclini (1997), as tribos compensam a atomização e a desagregação das grandes cidades, negligenciadas pelas macropolíticas, oferecendo a participação em grupos. Ainda em sua perspectiva, as tribos funcionam como referências simbólicas, suplências aos aparatos políticos e culturais que se tornaram obsoletos. Já Sarlo (1997) enfatiza que nas tribos busca-se uma certa estabilidade em um universo simbólico, que anteriormente era garantida pela vigência de uma moral que entrou em crise.
A transitoriedade e o imediatismo se congregam numa certa apologia do presente vivida na tribo, não há projetos futuros ou preocupações com o destino da tribo. É o próprio movimento do consumo que determina o futuro das tribos. Assim, a segmentação de grupos de consumidores de diferentes gêneros musicais é um dos fatores que tomam parte na formação e difusão de diversas tribos, como ocorreu com os clubbers. Ao mesmo tempo, diferentes adereços e vestimentas são associados a diferentes estilos musicais, tendo função de distintivos do bando em relação ao todo da massa e em relação a outros bandos. A relação das tribos com a sociedade de consumo é bastante complexa. Baudrillard (1970) afirma que na cultura do consumo os bens materiais não são apenas utilidades, mas tem um valor simbólico, um valor de signo. No caso, signo de diferenciação entre as tribos (Sarlo, 1997). Entre os clubbers e ravers há uma diferenciação conforme o estilo musical que se escuta. Coutinho observa que a pluralização e a segregação, presentificadas com o aparecimento das tribos no cenário social contemporâneo, reflete dois processos que, paradoxalmente, caminham juntos na complexa sociedade de consumo em que vivemos: a uniformização e a pluralização. A exaltação das diferenças, na sociedade de consumo contemporânea, torna-se explícita através das tribos. Há uma promessa de singularização que, no entanto, jamais é alcançada do modo como foi prometida. A partir disto, podemos constatar que ser diferente de alguns sendo "igual" a outros é a máxima do individualismo contemporâneo. Desta forma, as rixas entre tribos diferentes tornam-se cada vez mais constantes, demonstrando que não há um convívio pacífico com as diferenças. Pelo contrário, podemos notar que há, na realidade, uma necessidade permanente de confronto como forma de asseguramento da própria existência e continuidade de cada uma das tribos frente à multiplicação infinita de novas tribos.
Levando em conta as transformações nos modos de sociabilidade nas cidades de hoje, cujo protótipo são as tribos, tanto Maffesoli (1987) quanto Featherstone (1997), acreditam que caminhamos em direção a uma nova ética: a ética da estética. Para esses dois sociólogos a ética da estética é o modo contemporâneo de ordenar-se no mundo, ela própria constitui-se num fator de favorecimento ao aparecimento das tribos, estas "coletividades afetivastransitórias" (Featherstone, 1997). Na visão de Baudrillard (1985) vivemos um momento em que o fim do social deu lugar ao surgimento das massas e do espetáculo. Baudrillard afirma que a massa expressa um certo anonimato, sendo por definição, irrepresentável do ponto de vista político. Assim como Baudrillard, Maffesoli (1987) estabelece um paralelo entre a saturaçãoda forma política e a saturaçãodoindividualismo. Essa configuração pode ser vista “no que diz respeito ao conformismo das gerações mais jovens, à paixão pela semelhança, nos grupos ou tribos, aos fenômenos da moda, à cultura padronizada, até e inclusive isto que se pode chamar de unissexualização da aparência, tudo nos leva a dizer que assistimos ao desgaste da idéia de indivíduo dentro uma massa bem mais indistinta”(Maffesoli, 1987).
Nessas condições, Maffesoli propõe a diferenciação entre o social e a sociabilidade. No social o indivíduo tem uma função na sociedade, e funciona no âmbito de um partido, de uma associação, de um grupo estável. Já na sociabilidade, a pessoa (persona) representa papéis, tanto dentro das atividades profissionais quanto no selo das diversas tribos de que participa. Mudando seu figurino, ela vai, de acordo com seus gostos (sexuais, culturais, religiosos, amicais) assumir o seu lugar, a cada dia, nos diversas peças de tetrum mundi.
Featherstone (1997) explica como a troca do figurino esta implicada na "estetização da vida cotidiana" que é alimentada pelo consumo e pela mídia, onde o culto à imagem e à beleza imperam. Esta nova paisagem urbana repercute sobre o próprio senso de identidade do indivíduo, originando "identificações temporárias de afeto" (Maffesoli, 1988 apud. Featherstone, 1997). A sustentação destas identificações é referida à posse ou não de determinados objetos que se articulam na composição da imagem de si . A imagem de si é cultivada e cultuada tal como os artistas criam um objeto de arte, para uma apreciação estética. Desta forma, como expõe Castro (1998), os sentimentos de identidade e de perecimento social se apoiam cada vez mais na materialidade dos objetos externos, e o subjetivo fica cada vez mais remetido ao objetivo. Castro observa também que nesta "cultura da materialidade", que intensifica as "sensibilidades estéticas"; o sentimento de posse de uma interioridade se torna cada vez mais frágil, dando lugar, pelo contrário, a uma tendência a colar a identidade na imagem que se constrói para si objetivamente. Portanto, vemos que há uma articulação clara entre o consumo, a valorização da imagem de si como marca identitária privilegiada e a formação das tribos. Assim, os critérios de pertencimento a uma determinada tribo, como os da própria constituição de cada tribo, são tão frágeis e descartáveis quanto os objetos de consumo. Tal como os objetos produzidos pela indústria do consumo, os quais são rapidamente substituídos por outros no mercado, as tribos produzem "identidades nômades" (Castro, 1998). Com a troca do paradigma social para o de sociabilidade, pode-se dizer que “a autenticidade dramática do social” será substituídapela “superficialidade da sociedade”. A aparência, dessa forma, torna-se o vetor de agregação. Nesse sentido, a estética é um meio de experimentar, de sentir em comum e é, também, um meio de reconhecer-se. A teatralidade instaura e reafirma a comunidade. O culto aos corpo, os jogos de aparência, só valem porque se inscrevem numa cena ampla, onde cada um é, ao mesmo tempo ator e espectador, ou seja, trata-se de uma cena que é comum a todos. Nesse contexto, Maffesoli propõe a substituição da lógica de identidade pela lógica da identificação, a qual implica necessariamente uma relação, e não em uma noção de um indivíduo estável e contínuo. No seu argumento, a identificação diz respeito às "pessoas" (personas), às máscaras variáveis, e, em última instância, à imagem de si sempre em relação ao Outro. Com efeito, enquanto a lógica individualista se apoia numa identidade separada e fechada sobre si mesma, a pessoa (persona) só existe na relação com o outro. A multiplicidade, dessa forma, favorece a emergência de um forte sentimento coletivo. Com base em M. Mauss, Maffessoli, dentro de sua perspectiva, distingue pessoa e indivíduo. O indivíduo é livre, ele contrata e se inscreve em relações igualitárias. Isso servirá de base à atitude política. Em contrapartida, a pessoa é tributária dos outros, aceita um dado social e se inscreve num conjunto orgânico. Em suma, podemos dizer que o indivíduo tem uma função, e a pessoa, um papel. A idéia de persona, da máscara que pode ser mutável e que se integra sobretudo numa variedade de cenas, de situações que só valem porque representadas em conjunto, nos propõem a multiplicidade de eu e ambivalência comunitária. Maffesoli chama essa nova constituição subjetiva de “paradigma estético” no sentido de vivenciar ou sentir em comum. Ele afirma também que as massa, ou o povo, diferentemente de proletariado ou outras classes, não se apóia numa lógica de identidade. Sem um fim preciso, elas não são os sujeitos de uma história em marcha. A metáfora da tribo, por sua vez, permite dar conta de um processo de desindividualização da saturação da função que lhe é inerente, e da valorização do papel que cada pessoa (persona) é chamada a representar dentro dela. Claro está que, como as massas em permanente agitação, as tribos, que nelas se cristalizam, tampouco são estáveis. As pessoas que compõem essas tribos podem evoluir de uma para outra como num incessante “travelling” (ir e vir de um grupo ao outro). As tribos são a expressão mais simples da saturação do política e de seu suporte que é o individualismo..Elas não se projetam à distância, ou no futuro, mas vivem no concreto mais extremo que é o presente. Esses agrupamentos afinitários retomam a antiga estrutura antropológica que é a “família ampliada”. Estrutura essa onde a negociação da paixão e do conflito se faz bem de perto. Fica entendido, então, que, a “identidade” diz respeito tanto ao indivíduo quanto ao grupamento no qual este se situa: é na medida em que existe uma identidade individual, que vamos encontrar uma identidade nacional. De fato, a identidade em suas diversas modulações consiste, antes de tudo, na aceitação de ser alguma coisa determinada. (Maffesoli,1987) . Das palavras de Maffesoli conclui-se sobre o processo de massificação vivido na pós- modernidade. “A massa se basta de si mesma. Ela não se projeta, não se completa, não se “politiza”. Ela vive o turbilhão dos afetos e de suas múltiplas experiências. Isso porque ela é causa e conseqüência da perda do sujeito. Cria-se, então, uma “alma coletiva” na qual as atitudes, as identidades e as individualidades se apagam. Nesse modelo, cada um participa do “nós” global. Ao contrário do político que, paradoxalmente, repousa sobre o “eu” e o distante, a massa é feita de “nós” e de proximidade.”
Conclusão
Como foi visto, a pós-modernidade pode ser definida como a combinação de modernidade e pré-modernidade, ou seja, a união do passado e do futuro, num tempo circular e não mais linear como na modernidade. Na Cultura da Música Eletrônica encontramos esse aspecto na estrutura da própria música, que se apresenta sem o padrão musical de início- refrão-meio- refrão-fim- refrão, ou seja, sem uma linearidade. Ela se compõe como um rizoma, não começa e nem termina, é circular. Une-se duas ou mais músicas, que podem ser dos diversos estilos musicais como clássica, jazz, new age, hip hop, celta etc. como também pode-se remixar músicas que já passaram por esse processo, sempre acrescentando novos componentes computadorizados, para formar uma “nova” música, como se fosse um processo de reciclagem. O dj (disk jockey) é quem realiza esse processo em uma festa, seja em um club ou em uma rave. Ele torna-se um xamã, como nas “cerimônias primitivas totêmicas” em que se veneravam animais. Nessas festas venera-se a música, a experiência coletiva compartilhada, por meio da dança tribal, do estado alterado da consciência provocado pelas batidas repetitivas e/ou uso de drogas. A estética da música repetitiva lembra os rituais dos povos indígenas e os mantras onde a repetição leva à transcendência, à “liberação do ego”. Portanto, quando Duarte explica que assim como o mantra destrói o individualismo, a música eletrônica destrói o pop estar (líderes musicais), observa-se o protótipo de uma sociedade sem líderes, governos. A pós-modernidade remete-nos a desterritorialização, onde a nacionalidade, como a individualidade, não diferenciam mais os grupos. Nesse contexto, as tribos surgem como resposta contrária ao fenômeno da globalização, ao caracter homogêneo que essa produz, pois elas particularizam grupos socioculturais produzindo diferenças. Mas a heterogeneidade criada pelas tribos urbanas acaba por contribuir para a globalização, já que essas tribos não são características de determinados país ou cultura, mas sim da sociedade global. A partir, dessa lógica pode-se entender o porquê da denominação clubber e raver derivarem de espaços. Como as sociedades não mais se identificam por sua nacionalidade, cultura local, criam-se grupos que tenham na sua fundamentação o lugar que freqüentam. É como se os clubbers e ravers dissessem “eu pertenço ao club/rave, portanto minha nacionalidade é clubber/raver”.
Com a diversidade de culturas em um mesmo local, os “iguais” se agrupam formando as tribos. No caso dos clubbers e ravers, o ponto de conexão entre os integrantes é a música eletrônica. A partir dela, busca-se uma experiência compartilhada de sensações em comum, o que é definido por Maffesoli como “paradigma estético”. Aliás, a busca por sensações, pelo prazer é muito presente na Cultura da Música Eletrônica,.caracterizada pelo hedonismo da busca pelo prazer através da diversão, da dança, das festas, do uso de drogas como ácidos e ecstasy. Esse caracter pode ser observado quando a adolescente Janaína comenta: “Venho as raves por pura diversão, não venho encontrar namorado, mas para curtir o som e encontrar a galera.”
Pode-se pensar que as festas que envolvem a música eletrônica, principalmente as raves, não são simples eventos, ou um mero encontro entre as pessoas. Elas são uma verdadeira viagem subjetiva. Elas visam congregar, fazer com que as pessoas possam viver uma experiência boa de interação dos participantes. O próprio “U” (unity – unidade) do dogma PLUR nos remete essa característica. Cita-se depoimentos :
“...posso dizer que quando entrei na minha primeira festa de música eletrônica senti uma coisa diferente, uma energia muito boa, uma união entre todos” (retirado da lista de discussão e-music)
“...As tribos deveriam se unir em uma só, como nas raves. Aqui todo mundo tá junto mas cada um na sua. Todos se respeitam e isso é legal.” (Janaína, 16 anos)
Deve-se comentar ainda sobre o consumismo tão presente em nossa sociedade. Os clubbers e ravers, assim como outras tribos urbanas, através do objeto de consumo se diferenciam de outros grupos. Esses objetos acabam por possuir um valor simbólico de pertencimento a determinada tribo, ou seja, o subjetivo está subordinado ao objetivo. Exemplifica-se:
“...Eu, por exemplo, não sou clubber. Não gosto de laranja-cheguei, não uso bolsas em forma de vinil nem camisetas das PowerPuff..."
...Clubbers são simplesmente pessoas que gostam de roupas coloridas, pulseiras (muitas), acessórios diferentes, maquiagem incomum e música eletrônica. “ (retirado do texto Porque eu gosto de e-music ?? )
Portanto, as “identidades” estão submetidas aos objetos de consumo, e é a partir desse fato que podemos entender a lógica da troca de papeis no mundo pós-moderno. É como se em um local se fosse um e, ao trocar de vestes, outro..Aqui estão algumas das questões que se construíram ao longo do trabalho. Penso que a Psicologia Social tem muito a explorar sobre essa cultura que tem tanto a nos dizer sobre as formas de ser e de habitar na pós-modernidade .
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