Nawal El Saadawi é uma líder feminista egípcia, socialista, médica, novelista e autora de uma clássico sobre as mulheres no Islã, A Face escondida de Eva.
TRECHO DA PRIMEIRA PARTE DE SEU LIVRO: "A metade mutilada"
"... Eu gritei com toda minha força. Não! Não! Eu podia ver o rosto de minha irmã preso entre as grandes mãos ásperas. Seus grandes olhos pretos e esbugalhados encontraram os meus por um rápido segundo, um relance negro de terror que eu nunca esquecerei. Um tempo depois e ela se foi, atrás da porta do banheiro onde eu havia acabado de estar. O olhar que nós trovamos parecia dizer: 'agora nós sabemos o que é. Agora sabemos onde está nossa tragédia. Nós nascemos parte de um sexo especial, o sexo feminino. Nós somos destinadas a experimentar o desgosto, e a ter parte de nosso corpo rasgado por mãos frias e insensíveis'.
Minha família não era uma família egípcia sem educação. Ao contrário, ambos os meus pais tiveram sorte o suficiente para ter uma ótima educação para os padrões daquela época. Meu pai era um formando da universidade daquele ano (1937), e havia sido apontado como controlador geral da Educação da Província de Menoufla, na região do Delta do Cairo do Norte. Minha mãe havia sido educada em escolas francesas por seu pai, que era diretor geral de Recrutamento do Exército.
Não obstante, o costume de circuncidar garotas era muito presente naquela época, e nenhuma menina conseguia escapar da amputação de seu clitóris, não importando se sua família vivia numa área rural ou urbana.
Quando voltei para a escola após ter me recuperado da operação, perguntei ás minhas colegas de classe e amigas sobre o que aconteceu comigo, apenas para descobrir que todas elas, sem exceção, haviam passado por essa experiência, não importando a que classe social elas pertenciam (classe alta, classe média ou classe média-baixa).
Em áreas rurais, entre as famílias mais pobres, todas as garotas são circuncidadas, como descobri mais tarde por meus parentes em Kar Tahla. Esse costume ainda é muito comum nas vilas, e mesmo nas cidades uma grande proporção de famílias acredita ser necessária a operação. ..." Cabe a questão... Circuncisão feminina, violência ou cultura?
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